ELVIRA VIGNA - ARTIGOS/ENTREVISTAS
Confissões. In: Ser mãe é tudo de bom. São Paulo: Editora Matrix, 2008, 192 p. (71-75).
mesa
redonda sobre a influência do jornalismo na escrita ficcional; junto com Cristiane
Costa e Marcelo Moutinho, na Livraria Leonardo da Vinci (RJ), 05/10/05.
Boa noite, vou começar com uma história triste.
Eu tinha 17 anos e trabalhava no Correio da Manhã. Aliás, era
a única mulher da redação, um ambiente bem masculino
e nem um pouco classe média, o dos jornais daquela época. Bem,
minha função era cortar os telegramas da internacional e arrumar
em pilhas, por assunto. Depois fui promovida. Eu arrumava em pilhas e em ordem
de importância, os mais importantes em cima, os menos embaixo. Depois,
em mais uma vitória profissional, passei a cobrir os buracos da CEDAE.
Este posto era o seguinte: você chegava cedo na redação
e saía no primeiro carro que tivesse um lugar vago. Aí você
ia lá, quietinha, para onde o carro fosse. E quando passava por um
buraco, anotava: endereço tal, em frente a tal coisa. Se jorrasse água,
você mandava o fotógrafo fotografar. No dia seguinte, se alguma
coluna tivesse ficado curta, lá entrava o teu buraco embaixo de algum
título do tipo: "mais uma incúria do serviço público...".
E eu estava nessa quando um dia faltou um jornalista. Ele ia cobrir um grupo
de teatro que era muito famoso na época, de vanguarda, o Living
Theatre, inglês. E o chefe de redação bufando, procurando
o cara, me vê. E solta: quem vai cobrir é você, pode ir.
E eu fui, pela primeira vez sentando ao lado do motorista, com um fotógrafo
só meu no banco de trás. Cheguei lá, saltei sabendo que
os dois, motorista e fotógrafo, me seguiam com os olhos, eu, uma menina,
única mulher etc, eu era a pele da redação. O Living
Theatre estava hospedado em uma casa na Urca. Toquei a campainha, vem
uma empregada, ah, eles acabaram de sair para o aeroporto, foram um pouco
mais cedo porque tinham de pegar um berimbau que eles encomendaram não
sei onde.
Senti minha perna bambear. Pedi para entrar, tomar um copo de água.
Sentei em um sofá e tomei minha água devagar. Entre a demora
na espera que o verdadeiro jornalista aparecesse, e a saída mais cedo
do grupo, lá se ia minha primeira chance de escrever alguma coisa que
prestasse. Ao sair, já sabia o que fazer. Cheguei no carro e disse
que o grupo já estava se arrumando para sair e que não queria
ser fotografado. O fotógrafo deu de ombros e resmungou que para ele
tanto fazia e que o jornal tinha uma porção de fotos deles em
arquivo. Cheguei na redação e tasquei: o famoso grupo de teatro
inglês tinha adorado o Brasil e levava instrumentos musicais brasileiros
para incorporar em suas próximas pesquisas musicais e cenográficas.
O chefe de redação não elogiava ninguém, portanto
nem a mim. Mas no dia seguinte, eu tinha uma pauta. Foi assim que virei jornalista,
escrevendo ficção.
Nunca mais me esqueci disso. Me assusta até hoje. Não há
nada, nadinha, no discurso jornalista que te impeça de escrever mentiras.
Como não há nada, nadinha, no discurso ficcional que te impeça
de contar coisas verdadeiras sobre as pessoas que você conhece. Então,
a diferença que eu vejo é anterior ao texto. É uma decisão
que eu tomei assim que vi o meu texto sobre o Living Theatre no jornal:
que eu jamais, fazendo jornalismo, iria repetir aquilo, que eu nunca mais
iria suprir as lacunas dos fatos com minha interpretação, imaginação,
ou puro achismo.
Falei da influência da ficção no jornal. Agora vou falar
da influência do jornal na ficção. É importantíssima
mas mais uma vez não está no texto. É um treinamento
de cabeça. Você se habitua a ir direto para o essencial. Tanto
faz em que estilo - objetivo ou barroco - você vai escrever o que é
essencial para você. Você vai, depois de um treino em jornal,
direto para o essencial. E tem mais, vai descobrir que palavras são
instrumento de trabalho, nem um pouco sagradas. E vai cortar e reescrever
sem dó. E isso vai fazer com que teu texto fique melhor.
Agora uma palavra sobre o contexto. Não o contexto de haver jornalistas-escritores,
porque isso sempre existiu. Junto com tradutores, fazem um grupo que gosta
e conhece palavras, e que pode passar de um subgrupo para outro, e passa.
Falo sobre o contexto de, de repente, faculdades e mídia prestarem
atenção às aproximações entre jornalismo
e ficção. Tenho uma teoria para isso. Acho que sempre que a
realidade ameaça se torna virtual, irreal demais, a ficção
precisa de doses de realidade para atingir seu objetivo e seu leitor. Assim,
hoje temos romances históricos ficcionalizados, uma onda grande de
biografias, e textos ficcionais que trazem referências objetivas, como
ruas reais ou mistura de personagens inventados com outros que de fato existiram.
Acho que as mudanças radicais do Rio de Janeiro da virada do século
XIX para o XX, época do João do Rio, devem ter provocado nele
a mesma sensação de irrealidade que temos agora.
É isso. Não gosto do texto asséptico, jornalístico,
equilibrado, para a ficção contemporânea, que descreve
um mundo fragmentado, tumultuado. Não acho que funcione. Mas o treino,
ah, vale ouro.
entrevista ao site literário Paralelos, março/2005; repórter: Ronize Aline
1. Em seu recente livro, A um passo, em determinado
momento você diz que o personagem vai fazendo correções
na realidade, correções necessárias. Em outro momento
você escreve que “histórias são chatas, se repetem
como em um espelho, a única surpresa sendo a distribuição
de papéis, quem fará o quê desta vez”. Que realidade
é essa que aparece em seus livros e que precisa de correções?
Estão todos, no fundo, tratando da mesma história humana e tornando-se
únicos pela diversidade de
personagens que você insere neles?
A única maneira de a realidade produzir sentido é com as "correções"
feitas pela ficção.
A ficção nossa, de todos, de todos os dias.
Isso é um lugar-comum.
Não é isso o importante no A um passo.
O processo de criação aqui é o de "correções"
de momentos reais.
(Como em todos os livros de ficção.)
E mais a desfeitura das "correções".
O que, acho, só começa a acontecer na literatura de agora.
Assim:
Eu tinha um arsenal de coisas vividas/ouvidas/vistas muito fortes, impossíveis
de serem de fato compreendidas.
Todo mundo tem isso - uma cena que foi vista e jamais esquecida, ou o modo
como alguém ria, ou o som de um tiro.
Adensei a carga emocional delas e fiz pequenos desvios, deslocamentos.
Entrariam assim em alguma história viável e passariam a ser,
enfim, compreendidas.
(O que escritores fazem, todos, desde sempre.)
Aí entra o que eu acho só começa a existir agora.
Uma insatisfação com historinhas.
As coisas reais, vividas, duras, ficam apertadas, hoje, em historinhas.
Ao mesmo tempo, só elas sozinhas - reais, vividas e duras - não
são literatura.
O A um passo é um conjunto de coisas reais, vividas e duras.
Mas é este conjunto depois que a história onde elas estavam
foi esquecida ou dada por não ter jamais existido.
Então o conjunto contém a narrativa, embora ela esteja como
se em off.
O A um passo não é exatamente, então, uma narrativa.
É mais o banco de dados emocional que resta depois que uma narrativa
acaba.
Ou o banco de dados que existe sempre antes de uma narrativa começar.
Então, eu fiz uma história.
Depois cortei.
E fui cortando.
E estabeleci uma linha de chegada.
Se passasse e continuasse a dizer "não" para a história
que havia feito, não teria mais literatura.
Teria uma performance.
Eu, num palco, cortando a última palavra de um texto.
2. Algumas resenhas sobre A um passo destacam a sordidez
dos personagens nos seus relacionamentos. Você diria que há uma
consciência dessa sordidez ou são apenas pessoas tentando sobreviver
alheias a qualquer juízo de valor?
Não há preocupação no texto em relação
à moralidade.
Não é este o assunto.
O assunto do A um passo é a própria ficção.
Como ela é feita.
Como pode ser feita.
Ou como foi feita, no próprio texto apresentado.
A frase fundante do A um passo é a penúltima, a que fecha o
livro:
"Ela me olha e nos olhamos por um tempo, nos reconhecendo como ambos
a um passo, eternamente a um passo, da realidade."
O "ela" aqui é um próximo personagem.
De um eventual próximo texto ficcional.
E quem fala a frase sou eu.
(Ou - para os mais conservadores - o narrador, Próspero.)
Próspero é também o autor das pequenas histórias
que integram a grande história do livro.
Foram por ele inventadas, adivinhadas ou manipuladas.
Sim, adoro A tempestade, de Shakespeare.
Quando disse que a desfeitura da ficção era coisa de agora,
incluí algumas coisas do século XVI neste "agora".
Shakespeare, por exemplo.
E seu monólogo de Próspero, pedindo palmas e avisando para as
pessoas irem embora, que a peça tinha acabado.
Aliás, a dúvida de Próspero (o meu Próspero, não
o de Shakespeare), se escreve outro texto, pinta um quadro ou arranja um emprego,
era a minha dúvida.
No momento em que escrevia aquilo.
Ainda é.
Faço crítica de arte para o Jornal do Brasil.
Ajudo a Tereza na Lamparina.
E preciso retomar meu próximo texto.
Sempre me surpreendeu este destaque na "sordidez" dos meus livros.
Gosto muitíssimo das pessoas que moram neles.
Especialmente as do A um passo.
Por exemplo, neste exato momento.
Acabo de ver Nina - ou foi Tânia - passar pela minha parede branca.
Nos encaramos por um momento antes que ela sumisse.
E vou dizer: fiquei com os olhos molhados de saudade e fiz um movimento com
a cabeça.
Tentei chamá-la.
Ridículo.
E eis o único juízo de valor possível.
A ficção (a que eu fiz para mim mesma, de que era possível
uma personagem passar pela minha parede) é sempre ridícula quando
acaba.
(Atenção, quando a ficção acaba, não quando
o texto acaba.)
O A um passo teve essa característica.
Tem.
Nunca pude largá-lo.
Levei muito tempo tirando do texto toda gentileza, toda boa-educação.
Uma guerra contra adjetivos, conjunções, preposições.
Toda a cola, o grude, todo o mingau.
Nada de "es", "maises" e "porques".
Nu.
E presente como nunca.
Então não posso julgá-lo nem às pessoas que nele
moram.
Não acabou.
E como tem a proposta de um eterno refazer, acho que esta ficção
não vai acabar nunca.
3. Outra questão que vem sendo apontada diz respeito às
identidades mútliplas de seus personagens, consideradas típicas
da sociedade contemporânea. Essa é uma discussão que tem
sido explorada pelos meios acadêmicos. A transposição
dessa problemática da área ensaística para a área
ficcional foi intencional de sua parte?
Não há nada que não seja intencional em A
um passo.
Este texto é um projeto literário.
Não só na estrutura, em cenas que são farrapos, vestígios
(ou fontes, inícios) de uma história.
Mas nas estruturas menores que estão dentro da estrutura maior.
E que são, estas pequenas estruturas, as histórias individuais
das pessoas presentes.
Essas pequenas histórias também são estruturadas em farrapos
(ou inícios) da "verdade" ficcional, do que teria "verdadeiramente
acontecido" na vida de cada um deles.
As histórias pequenas seguem a mesma estrutura da história grande.
Como na história grande, as pequenas também podem variar dependendo
de quem as conta.
De quem as escuta.
Ou do programa de televisão que acaba de passar.
Tânia conta a história de Nina que conta a história de
Gringo que tem sua história e todas as outras contadas por Próspero,
que só existe enquanto existem as histórias que conta.
E qualquer um deles poderia ser qualquer outro.
Poderíamos.
Prósperos que somos todos.
É, na sociedade contemporânea, com suas tempestades sempre virtuais,
mesmo quando reais.
O A um passo traz várias possibilidades de final.
Ou nenhuma.
Quem ficou com os dólares que podem ter jamais existido?
Nina.
Tânia.
Gringo.
Ou foi Próspero.
Fui eu.
Que posso ser qualquer um deles.
4. Você é também artista plástica, tendo em seu portfólio ilustrações e capas de livros. Como vê as duas artes – a escrita e a ilustração – no ato de contar uma história?
Literatura não precisa de imagens.
Mas pode tê-las.
Será então uma criação intersemiótica.
Ou multimídia, para usar uma palavra menos arestosa.
Nada contra.
Pelo contrário.
Tudo a ver com uma nova riqueza.
A do convívio do lógico com o analógico.
Da linha reta com o círculo.
E de uma abrangência includente bem feminina que se impõe.
Qualquer outra possibilidade, sou contra.
A imagem como tradução do texto.
A imagem como resumo do texto.
A imagem como comentário do texto.
A imagem em vez do texto.
Detesto.
Acho uma diminuição da possibilidade polissêmica do texto.
E da nossa.
É lugar-comum dizer que vivemos em uma época do apogeu da imagem.
Não acho.
Acho que nossa época matou a imagem.
Fez isso ao elegê-la como a linguagem preferencial da comunicação
social.
Nesta função, a imagem precisou se tornar cada vez mais eficiente.
Ter menos possibilidades de erro.
Precisou ficar mais rasa, mais rápida.
Ser entendida da mesma forma por mais gente.
Não propõe um diálogo. Segue normas.
De perfeição.
É autoritária. E burra.
O que nos salvará a todos é a arte contemporânea.
Opaca, complexa, dúbia.
Efêmera. Imperfeita.
E inteligentíssima.
Sempre com um texto escondido.
Às vezes com um texto às claras.
5. O seu texto não segue uma narrativa linear o que, apesar de não ser algo completamente novo, tem chamado muita atenção na literatura contemporânea. Na sua opinião, essa ênfase atual na não-linearidade do texto ficcional pode ser um reflexo dos novos suportes multimídias como, por exemplo, a internet?
No começo da entrevista disse que o A um passo não
é uma narrativa.
É o banco de dados que restou de uma narrativa ou que propiciará
uma narrativa.
O A um passo traz, além disso, uma disposição
das cenas em hipertexto.
Há desvios e focos secundários de atenção a partir
de frases ou palavras da cena anterior.
Não acho que a não-linearidade da literatura atual seja um reflexo
da tecnologia ora dominante.
A tecnologia é sempre filha de uma cultura ou ideologia e a ela presta
serviço.
A internet e a literatura não-linear são ambas fruto de uma
mesma situação histórica.
A situação é de quebra de paradigmas de uma ordem que
ficou para trás.
Sem outra que se imponha.
(Não dá mesmo para estabelecer muita coisa depois da física
quântica.)
Não vejo relação de causa e efeito entre a internet e
a literatura fragmentada.
Mas vejo uma influência mútua.
Um realimentar contínuo do lugar-nenhum.
Uma tensão contínua entre identidades grupais não-geográficas.
Culturas em colcha de retalhos. Tribos compondo um todo único.
Um viver para sempre na fronteira.
"É porque somos ambos homens de fronteira, tinha dito um dia
gringo a P., ou foi outra besteira parecida."
6. Você tem um site no qual expõe seus trabalhos. De que forma você acha que a internet pode contribuir para uma maior divulgação e valorização do livro impresso?
Acho a internet um reduto de resistência do texto.
Canal de comunicação em linguagem escrita.
E também fábrica de novos dialetos.
(O que mantém viva a língua.)
Mais do que tudo, a tela repete a situação psicológica
da página.
Ler é uma ação individual, solitária e alienante
do seu em torno.
É seu maior problema e sua maior qualidade.
É o contrário do que se dá na tela anterior, a da televisão,
que permite o "ver junto".
Ninguém lê junto.
Ninguém senta junto no computador.
Ninguém pensa junto.
Compartilha-se.
É diferente.
E muito, muito melhor.
O mundo melhorou.
A tecnologia atual é melhor do que a anterior.
Por exemplo, a questão da imposição cultural.
Não há muita defesa contra sitcoms.
Mas enquanto se falar "eu deletei", quem tem de se defender é
o inglês.
7. A editora Lamparina, de cujo conselho editorial você faz
parte, completa um ano neste mês de fevereiro. Como você situa
a atuação da editora ao longo desse período?
Acho que acertou quase sempre.
Acho que age com coragem.
E acho que pensa a longo prazo.
Três raridades.
Mais uma:
Não tem certeza de nada.
O que facilita o se mover.
8. Percebe-se, nos lançamentos da Lamparina, um cuidado na produção dos livros. Há, por exemplo, ao final de cada um, uma citação da obra de um autor brasileiro na qual encontra-se a palavra lamparina, acompanhada de uma definição dicionarizada da palavra. Esse tipo de preocupação só é possível e é própria de editoras menores e, portanto, com menos títulos em catálogo?
Não.
A Cosac é sensacional.
A Companhia das Letras também.
A Iluminuras e muitas outras.
O editor brasileiro é um sujeito que faz livros porque gosta.
Vejo ele bem próximo do escritor.
Às vezes é escritor.
Jornalista, ex-gráfico.
Ou ligado à academia, um estudioso.
Respeitoso.
Acho que o problema de uma mercantilização descuidada vem com
as grandes corporações internacionalizadas.
Despejam qualquer lixo em qualquer lugar.
E tem o livreiro, que é despreparado para o que faz.
E que emprega mão-de-obra mais despreparada ainda.
9. Dentro de um mercado no qual se destacam algumas poucas gigantes editoriais que têm, ultimamente, abocanhado editoras menores, como você definiria o papel dessas pequenas editoras que resistem e das que, como a Lamparina, têm ousado se lançar no mercado há pouco tempo?
Devemos isso ao Fernando Henrique, que permitiu a entrada das gigantes.
10. Quais são seus próximos projetos? E você pode comentar algo sobre o que a Lamparina reserva para 2005?
Não.