ELVIRA VIGNA - NOVIDADES: PEDAÇOS DE LEITURA,
2008
"A
moça escolhida o era pela passividade e a palidez. Quanto mais
desconjuntada, indolente e molenga, melhor. O garanhão era escolhido no
tapetão. Apesar de não se ter formado em advocacia, Betty dizia que o
deleite sexual adivinha da eloqüência masculina na hora do gozo."
(Silviano Santiago em Contos antológicos)
"Nunca lhe pediram troco. Acariciava a pele descrente. O que sabe sobre si: vende fatias."
(Luci Collin em Acasos pensados)
"Gosto
de ver esses filmes livres para maiores de seis anos porque não mostram
o universo kitsch dos adultos, com adultérios e separações"
(Heinrich Böll em Pontos de vista de um palhaço)
"Sexo. Negócio que nunca acaba."
(Newton Cesar em O mar e a escduridão)
"Não
sou intolerante a rap e a reggae, a blues e a jazz, porque a arte é
universal e sobre-humana. O que eu não tolero é americano e aquele
rapaz parecia muito com Nixon."
(Arturo Gouveia em Pelos pobres de Tegucigalpa)
"Derrière
eux, les huit demoiselles d'honneur, toutes vêtues d'organdi rose,
leurs frais visages encadrés par des capelines assorties. Léa détestait
le rose et l'organdi."
(Régine Deforges em La bicyclette bleue)
"Aí
está como terminam, ouvia meu pai dizer, os que dão beijinhos à porta.
Os que riem involuntariamente, os que vivem de intrigas, os que se
matam aos gritos e se reconciliam loucamente. Aí está.
Toda uma vida
de contenção, de paixões sufocadas, de sexo dosificado, recebia por fim
um prêmio irrevogável: nós, querido, não nos suicidamos."
(Marcelo Birmajer em Histórias de homens casados)
"Uma
mulher falando sozinha em casa. Uma mulher no caos do lar. Uma mulher e
suas coisas. Uma mulher e mais ninguém. Um monólogo."
(Angela Dip em Por água abaixo)
"Não
se sabe se aquela vez foi, de fato, para algum dos dois, a primeira. E
até hoje Beatriz não teve mais notícias de Walter, que, dizem, vive com
outro homem em Veneza."
(Maria Esther Maciel em o livro dos nomes)
"Tenho vivido no pavor das metamorfoses."
(Jean Genet em Diário de um ladrão)
"Já li Lope de Vega e li Gregório,
pois ambos sonetaram do soneto,
seara na qual minha foice meto,
tentando fazer algo meritório.
Não quero usar o mesmo palavrório,
mas pilho-me, no meio do quarteto,
montando a anatomia do esqueleto.
No oitavo verso, o alívio é provisório.
Contagem regressiva: faltam cinco.
Mais quatro, e fico livro do problema.
Agora faltam três... Deus, dai-me afinco!
Com dois acabo a porra do poema.
Caralho! Só mais um! Até já brinco!
Gozei! Matei a pau! Que puta tema!"
(Glauco Matoso em Poesia digesta)
"Oscilando
e cambaleando apoiado na minha bengala, penso nas palavras mais ou
menos ridículas, derivadas do grego, para denominar terrores
irracionais, muitos dos quais designam mais ou menos condições de saúde
ridículas: antofobia (medo de flores), pogonofobia (de barbas),
deipnofobia (de festas e jantares), triscaidecofobia (do número treze).
Sim, são almas muito sensíveis. Mas há uma para ferrugem (iofobia) e
acho que tenho isso."
(Martin Amis em Casa de encontros)
"E
em segundo lugar, 'porrada' derivava de porra, e porra não era o que eu
estava pensando; era uma arma do exército romano, uma espécie de último
recurso, na forma de um cassetete. Quando não podia lutar com a espada
curta, o soldado romano saía distribuindo porrada, isto é, batia com
aquela porra na cabeça do inimigo."
(Deonísio da Silva em Orelhas de aluguel)
"Perguntei
o que teria levado o homem ao suicídio. E o sushiman, que naquela hora
cortava a carne branca dos tentáculos de um polvo, respondeu, sem olhar
para mim, como se falasse de uma doença qualquer: disseram que foi a
literatura."
(Bernardo Carvalho em O sol se põe em São Paulo)
"Choramos juntos, nos vestimos e não dissemos adeus. Na minha bolsa, alguns dólares."
(Lima Trindade em Corações, blues e serpentinas)
"Ah, eu adoro cozinhar: me dá uma sensação de estar com a cabeça tão vazia, mas de uma forma útil."
(Truman Capote em Travessia de verão)
"- Quero estar dentro de você.
- É difícil.
- Mesmo para um hermafrodita?
- Mostra para mim.
Eles dançam, os três juntos."
(Daniel Odier em O beijo canibal)
"Era difícil saber quem traía a quem ou se tudo fazia parte de um jogo."
(Eric Novello em Necrópole)
"Victor
entrou no barraco, acendeu um lampião a querosene, sentou-se na cama
mambembe e, devagar, abriu o envelope. Por força do hábito, abriu-o de
baixo para cima. Remetentes de carta-bomba quase sempre põem o
detonador na parte de cima do envelope. Poucas pessoas com razões para
esperar uma bomba pelo correio abrem suas cartas do jeito normal. O
envelope continha um mapa, cuidadosamente desenhado à mão com nanquim
preto."
(Henning Mankell em A leoa branca)
"La
Guardia, disse Nick, e lá vão eles para La Guardia. Quando chegam lá,
Nick vai até o balcão de passagens e pergunta qual o primeiro vôo. Vôo
para onde?, pergunta o vendedor de passagens. Para qualquer lugar, diz
Nick. O vendedor consulta o horário. Kansas City, diz. Há um vôo agora,
o embarque começa dentro de dez minutos. Bom, diz Nick,
entregando o cartão de crédito ao vendedor, me dê uma passagem. Só ida
ou ida e volta?, pergunta o vendedor. Só ida, diz Nick, e meia hora
depois esá sentado no avião, voando na noite para Kansas City."
(Paul Auster em Noite do oráculo)
"Tenho
certeza que ele nunca lhe disse:´você tem que ir para a cama com o
Ordóñez´. Quer dizer: nunca o disse assim, de forma tão violenta. Foi
uma manobra a distância que no fim fugiu do seu controle. Uma espécie
de bumerangue: você o joga como quem não quer nada e, se não se abaixa,
ele corta a tua cabeça."
(Ricardo Piglia em A invasão)
"De
repente, como se despertasse do sono e da demência ante a majestade da
aurora no mar, a Rainha olhou demoradamente o filho nos olhos e afirmou
com a energia dos idos dias de governo ativo:
- Filho, eu sei!"
(João Felício dos Santos em Carlota Joaquina, a rainha devassa)
"O
motel brasileiro se anuncia de longe, com cartazes e néon, com oferta
de almoço executivo, teto solar e cadeira erótica. Mais importante
ainda, quando recorre à publicidade na imprensa, por exemplo em São
Paulo ou no Rio, ele chega a se propor como alternativa de lazer ao
casal casado."
(Contardo Calligaris em Hello Brasil!)
"Hope
se pergunta se sua visitante é judia. Ela jamais aprendeu a identificar
quem é judeu, como sabem fazer os anti-semitas e os próprios judeus."
(John Updike em Busca o meu rosto)
"Não
vou conseguir contar porque eu sempre rio na metade da coisa e não tem
nada mais chato do que alguém contando uma coisa engraçada e rindo
misturado com a coisa que a gente está esperando ser contada e a gente
fica olhando o idiota e pensa Como é idiota. E no meio da coisa a
gente também pensa Estou fazendo papel de idiota."
(Luci Collin em Vozes num divertimento)
Noite bonita, disse consigo. Reinava um cheiro bom de esterco fresco."
(Sérgio Faraco em Noite de matar um homem)
"Não lembro
de sua roupa. Não lembro de sua cara feliz, a qual devo ter dedicado
tão pouco tempo a olhar. Nem de ter-lhe dado tchau, enquanto tentava
inutilmente arrastar uma amiga do colégio, pela qual jamais me
interessara antes e tampouco me interessaria depois, para um fim de
noite menos vazio."
(Marcelo Semer em Certas camções)
"Não
sou o tipo de mulher que sabe que o marido tem um caso e continua
vivendo com ele, não. Se fosse verdade essa história que você está
inventando agora de pura maldade, eu já teria me separado. Está
pensando o quê? Que eu sou uma mulher qualquer, que se agarra ao
casamento por medo? Só porque eu sou ´a boazinha´? Olha bem para mim e
vê se eu tenho cara de vítima, de mulher traída conformada."
(Ana Arruda Callado em Uma aula de matar)
"O
dr. Paul Steiner, psiquiatra clínico da Clínica Steen, estava sentado
no consultório da frente, no andar térreo, ouvindo a explicação
altamente racionalizada de seu paciente sobre o colapso de seu terceiro
casamento."
(P. D. James em Mente assassina)
"Una
noche, Elisa se sentó junto a su padre delante del televisor para
presenciar cómo una gorda que ponía los ojos en blanco ganaba tres mil
euros gracias a su erudición: conocía el nombre del primer hijo de
Angelina Jolie."
(Luis Manuel Ruiz em El ojo del halcón)
"Quando
ameacei ir embora antes de cantar parabéns-pra-você e soprar as
velinhas, por não agüentar o espetáculo do amado idealizado no seio
concreto da família, cortou grossa:
-Sem essa, m´irmã. Homem que presta nasceu morto."
Perguntei
se achava a Estefânia mais bonita do que eu. Garantiu que nunca, e não
mentia pra me bajular no meu dia de nascimento. Segundo ela, eu dava,
no duro, de dez a zero na legítima."
(Margarida Patriota em Elas por elas)
"Em
matéria de leitura eu sou onívoro, ou polífago, se preferem. Leio tudo
que aparece na minha frente. Mas as duas leituras que prefiro são
poesia e bula de remédio."
(Rubem Fonseca em O romance morreu)
"E
o sorvete, que eu simplesmente passaria para que cada um se servisse na
própria caixa, naturalmente tinha que ser transposto para um tigela
bonita, acompanhada de uma colher de prata para servir.
Bonita. Essa era a medida da vida de mamãe."
(Joyce Carol Oates em A falta que você me faz)
"Sempre
achei que a escola não devia ensinar certas coisas pro pessoal de lá do
beco. Onde ficava o coração, por exemplo. Se não fosse o professor, eu
tinha atirado no lado direito e o porco ainda podia tá vivo.
Sempre achei que o coração fosse do lado direito.
Mas não era."
(Ítalo Ogliari em Um sete um)
"A
diferencia de lo que sucede en las verdaderas novelas de ficción, los
elementos de este relato que empiezo ahora son del todo azarosos y
caprichosos, meramente episódicos e acumulativos - impertinentes todos
según la parvularia fórmula crítica, o ninguno necesitaría al otro -,
porque en el fondo no los guía ningún autor aunque sea yo quien los
cuente, no responden a ningún plan ni se rigen por ninguna brújula, la
mayoría vienen de fuera y les falta intencionalidade; así, no tienen
por qué formar un sentido ni constituyen un argumento o trama ni
obedecen a una oculta armonía ni debe extraerse de ellos no ya una
lección - tampoco de las verdaderas novelas se debería querer tal cosa,
y sobre todo no deberían quererlo ellas -, sino ni siquiera una
historia con su principio y su espera y su silencio final."
(Javier Marías em Negra espalda del tiempo)
"Eu sou mestre nisso: fujo da minha história todo dia e ela me persegue como um vira-lata abandonado."
(Lionel Shriver em Precisamos falar sobre o Kevin)
" - Menina, não senta de perna aberta."
(Cecília Prada em Estudos de interiores para uma arquitetura da solidão)
"Nos lugares onde isso acontece, os
sobreviventes, as pessoas que estavam perto e ficam feridas, às vezes,
meses depois, aparecem uns calombos nelas, por falta de termo melhor, e
aí vão ver e descobrem que a causa é fragmentos, fragmentos mínimos do
corpo do terrorista suicida. O corpo dele é reduzido a pedacinhos,
pedacinhos minúsculos, e fragmentos de carne e osso são lançados com
tanta força e velocidade que se cravam no corpo das pessoas que estão
por perto."
(Don Delillo em Homem em queda)
"Em Philip, sempre houvera um lugar que
lhe era vedado, uma reserva, uma frieza que, de início, atribuia à
guerra, às trincheiras, às cicatrizes psicológicas ocultas dos
soldados. Mas depois começou a ter dúvidas: nunca conseguira ter
intimidade suficiente com as mulheres dos colegas do marido para
perguntar se também elas sentiam haver esse local proibido em seus
homens, uma região onde estava escrito Verbotem, Proibida a Entrada."
(Doris Lessing em O sonho mais doce)
"Cagando de medo, sempre em frente.
Cagando de medo, pernas para que te quero. Nunca ficou claro em que
grupo esteve o Carajillo, nunca lhe perguntei. Talvez fosse uma
invenção, não houve muitos carros blindados na Guerra Civil
Espanhola."
(Roberto Bolaño em A pista de gelo)
"Visto a distância, se destacava dos demais
passantes pela altura acima da média e pela quase imperceptível
oscilação do tronco, lembrando o ponteiro de um metrônomo. Entrou na
pequena loja sem hesitação. Pediu dois quibes e duas esfirras."
(Luiz Alfredo Garcia-Roza em Na multidão)
"O padre Perereca, assim alcunhado por seus
braços finos e compridos, olhos esbugalhados, tez algo esverdeada e voz
fina e piedosa, era o historiador oficial da Real Família."
(Ruy Castro em Era no tempo do rei, um romance da chegada da Corte)
"Desce os degraus da cozinha para o quintal,
desolado também com a fogueira molhada. Manda comprar álcool, não é
possível. Os armazéns estão fechados há anos e ninguém mais se lembra
com quem ficou a chave do cadeado do portão."
(Gustavo Bernando em Reviravolta)
"Traio Michel como traí você tantas vezes em seis dos nove anos do nosso casamento.
Sangue de puta."
(Amós Oz em A caixa-preta)
"Se a queda é livre
o medo da queda
é preso.
Livre é a queda
sem embaraço
defeso.
A queda
de um homem
tenso
não é a gerra
do peloponeso
pelo estreito
de um coração
perverso.
A queda livre
é o próprio peso
de um coração
suspenso.
Toda queda
é o menosprezo
de quem cai
sobre si mesmo."
(Mário Chamie em Caravana contrária)
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