ELVIRA VIGNA - NOVIDADES: PEDAÇOS DE LEITURA,
2006/7
"Merda, deveria ser mais fácil chorar."
(João Silvério Trevisan em Troços & destroços)
"E uns leirões de coentro cercados de faxina,
porque as galinhas e os porcos se criavam soltos, entrando por dentro
de casa, como gente. Na cozinha, uma trempe de ferro com fogo aceso e
um pote com água barrenta do rio, que bebiam."
(José Lins do Rêgo em Menino de engenho)
"Todos os homens são assassinos, pensou Juliet. Todos. Eles matam mulheres. Pegam uma mulher, e vão matando aos poucos."
(Rachel Cusk em Arlington Park)
"Nossa família não é do tipo que viaja nas férias da
primavera. Na verdade, nunca fizemos isso. Então, quando meu pai
levantou-se da cadeira à mesa do jantar e perguntou a Sage o que ele
achava de ir a Saint Maarten, entendi que nos encontrávamos numa
situação de emergência."
(Julie Orringer em Como respirar debaixo d´água)
"Primeiro havia-se avaliado a possibilidade de
alambrado duplo, um farpado no exterior e outro mais bonitinho na parte
interna, mas a maioria dos sócios não achou suficiente. Uma parede,
para que ninguém pudesse não somente passar mas tampouco nos ver, nem
ver nossas casas, nem nossos carros, isso era o que todos queríamos. E
que nós também não víssemos o lado de fora. Mas o paredão ainda não
estava aprovado, por uma questão estética."
(Claudia Piñeiro em As viúvas das quintas-feiras)
"Um homem bom para se aconchegar em uma noite fria;
o tipo de amigo com quem se vai distraidamente para a cama, depois se
tenta lembrar se realmente aconteceu. Em resumo, não um homem de
paixão."
(J.M. Coetzee em Homem lento)
"Desembrulhei o pacote. Era uma caixa onde
estava escrito Magic Dildo. Era um consolador, um pênis de plástico
rosa pálido, acionado por um botão, que acendia uma luz vermelha e
fazia a glande girar, emitindo a música de Strauss, Danúbio Azul."
(Paula Parisot em A dama da solidão)
"Porém eles haviam entrado no ritmo, aqueles rapazes fortes, e
não podiam mais parar, não parariam nem se ele se jogasse
dentro da sepultura e exigisse que o enterro fosse interrompido. Agora
nada os deteria. Eles continuariam a jogar terra, enterrando a ele
também, se tal fosse necessário para levar a cabo o
serviço."
(Philip Roth em Homem comum)
"Eu gostaria que ele estivesse aqui, ou então o Ben, ou qualquer
homem que conheço. Estou perdendo o apetite para estranhos.
Antigamente eu teria me concentrado na excitação, na
aventura: agora é a bagunça, o incômodo. Tirar a
roupa graciosamente, sempre uma total impossibilidade; imaginando o que
dizer depois, sem usar os ecos que soam em sua cabeça. Pior, o
encontro com outro conjunto de particularidades: as unhas do pé,
os buracos do ouvido, os pêlos do nariz."
(Margaret Atwood em Olho de gato)
"Um minuto depois, entrou a detetive Charvillefort. Era uma mulher
baixa, corpulenta e surpreendentemente jovem, com um rosto franco e
profissional, livre de maquiagem. Tinha olhos de um azul muito
brilhante. Um ar de inteligência. Lembrou-me uma gralha."
(Liz Jensen em A nona vida de Louis Drax)
"- Madame, o Marquês morreu! - anunciou sem fôlego.
- Que Marquês - perguntei, sem querer entender.
- Sade - confirmou Odette com ar compungido.
O primeiro efeito da notícia da morte de meu velho mestre foi a
dor. Quantos anos, mais de 40? No mesmo instante em que as
lágrimas me subiam aos olhos, um insidioso e conhecido calor
começou a se espalhar pelo meu corpo. A dor não é
empecilho para o desejo, mas antes a causa. A primeira
lição do Marquës."
(Ruth Barros, Marcos Gomes e Heloisa Campos em Os florais perversos de Madame de Sade)
"Talvez por causa dos 75 anos que haviam passado lado a lado, sob o
mesmo teto, comendo a mesma comida, respirando o mesmo ar viciado da
casa, com a mesma vista para as árvores defronte das janelas -
haviam compartilhado tudo. Nenhuma palavra podia definir a
relação entre eles. Não eram irmãos nem
amantes. Mas existia algo diferente, que eles não percebiam com
nitidez. Existia uma fraternidade particular que é mais
íntima e mais profunda que essa que une os gêmeos no
útero materno. A vida mesclara seus dias e suas noites, cada um
tinha consciência do corpo e dos sonhos do outro.
Disse a governanta:
"Quer que seja tudo como no passado?"
"Quero", disse o general. "Exatamente assim. Como da última vez."
(Sándor Márai em As brasas)
"Representar cenas em pinturas ou fabular vidas alheias em romances
não deixa de ser entretenimento macabro que deveria voltar-se
contra quem o pratica mediante uma recriminação social
adequada."
(Fernando Royuela em Maldita morte)
"Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de
núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as
dificuldades sexuais era completamente impossível. Mas nunca
é fácil."
(Ian McEwan em Na praia)
"Fugidiamente, ao sol, na ausência do vento mortífero,
poderíamos esquecer, pensar em outra coisa. Foi o que eu me
disse, ao chegar ao lugar do encontro, diante do barraco das latrinas
coletivas."
(Jorge Semprun em O morto certo)
"O telefone insiste. Deve ser ela. Era ela. Você não vai
se livrar de mim tão fácil assim. Vou falar com a sua
mãe. Vou falar para ela que você quer desmarcar o
casamento faltando menos de um mês. Aproveita e diz que eu mandei
lembranças. Eu não gosto de ligar para ela. Eu não
gosto dela. Eu não gosto de você. Eu não gosto de
ninguém."
(Lourenço Mutarelli em O cheiro do ralo)
"Como eu era menino, tinha liberdade de andar ao redor dos
móveis onde essas pessoas estavam sentadas; e também me
deixavam andar ao redor das palavras que elas utilizavam. Mas agora eu
não tinha mais vontade de procurar segredos."
(Felisberto Hernández em O cavalo perdido e outras histórias)
"Salvatore não empresta, ele dá; quando quer alguma coisa
ele manda pegar, nunca pede. Ótimo sujeito. Talvez um dia eu
fique como ele."
(Ana Paula Maia em A guerra dos bastardos)
"E o senhor Kafka, esboçando um ar de curiosidade, antes de
perguntar novamente, ouviu de Cabedal, o velho raizeiro que estava logo
atrás: 'É o aniversário da cidade e da
independência também, a gente poda as árvores mais
velhas, dá a caiação nos troncos e repete tudo no
ano seguinte.'"
(Ronaldo Cagiano em Dicionário de pequenas solidões)
"E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se
em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica
à minha espreita. Ou Deus."
(Caio Fernando Abreu em Onde andará Dulce Veiga?)
"Depois ajeitou o sutiã, compensando com enchimento o peito
menor pela injeção de silicone mal-aplicada, borrifou
perfume, pegou a bolsa e ganhou a rua."
(Marcelo Moutinho em Somos todos iguais nesta noite)
"A sirene cada vez mais próxima. Atravessando rapidamente a rua,
ele se atira na caçamba de lixo e desaparece para sempre."
(Alexandre Faria em Anacrônicas)
"Detesto a los soldados que se hacen preguntas, pero mucho más a los que obtienen respuestas."
(Arturo Pérez-Reverte em El pintor de batallas)
"O pampa não é de ninguém, ele só me
empresta o tempo. Estou dentro dele e ele está dentro de mim. O
pampa é o tempo largo."
(Luiz Horácio no inédito Nenhum pássaro no céu)
"Se chovesse um mês inteiro, não daria nem para
começar a limpar esses prédios miseráveis, ele
pensou. As ruas de calçamento esburacado como um rosto
bexiguento. E as pessoas. Os vagabundos do cais. As ruínas
humanas."
(David Goodis em A garota de Cassidy)
"Creio que sabe que não há nada de pessoal em tudo isso.
É simplesmente uma verificação de rotina.
Há tantas regras que às vezes algumas são
negligenciadas. A natureza humana é assim mesmo."
(Graham Greene em O fator humano)
"E enquanto eu olhava o céu limpo da cidade suja, interpunha
entre nós seu primeiro muro de palavras. Confusas, atormentadas,
sobre tudo e sobre nada: palavras amontoadas umas sobre as outras, como
se amontoam tijolos para separar alguma coisa de outra coisa."
(Caio Fernando Abreu em Pequenas epifanias)
"Quando ela saiu, passando das cinco, o velho duvidou que ela
conseguisse chegar à rodoviária até as sete, hora
em que o ônibus saía. Duvidou. Nem por nada. Só
isso."
(Fernando Bonassi em Subúrbio)
"Ao lado do hotel apenas um ponto de ônibus antigo e uma casa na
qual se vêem mulheres entrando eretas, e cambaleando as pernas ao
sair. Mulheres de Bukowski. Mas não são elas que estavam
ali antes de tudo?"
(Carlos Machado em Balada de uma retina sul-americana)
"Ming consultava-a sobre as idéias que ia tendo para os novos
absorventes, e sobretudo a utilizava como modelo, pois Lupe tinha uma
xoxota padrão."
(Pedro Almodóvar em Fogo nas entranhas)
"E isso o desconcentrava e maculava a ponto de ver-se afogado na
própria imaginação, como um homem asfixia nas
águas de um rio e morre observando o sol tremular feito uma
flâmula líquida nos confins do céus."
(Joca Reiners Terron em Sonho interrompido por guilhotina)
"Anglada classificou o pôr do sol como inferior aos faróis de um automóvel que devora o asfalto."
(J.. L. Borges e A. Bioy Casares em Seis problemas para Dom Isidro Parodi)
O mal estar que exala quem discorda
Porque não sente quase ou não entende
Concorda bem com o de quem assente
Sem romper a casca, e não acorda.
Somente se distar de estar de frente
Distrai a sua mente da derrota.
Distante como diante de uma porta
Destrói na letra preta o branco ausente.
A vida do sentido o incomoda -
Vigor de ponta a ponta da serpente
Que o branco ovo a cada dia lota.
Suporta, não se importa ou então mente,
Não compreende o que o prende à borda -
O ouro da palavra, um acidente.
(Arnaldo Antunes em Como é que chama o nome disso)
"E, embora tenham se passado tantos anos, e Miraflores tenha mudado
tanto, assim como também os costumes, e se eclipsaram as
barreiras e os preconceitos que antes de manifestavam com
insolência, e agora são disfarçados, eu a guardei
na memória e às vezes a evoco, para ouvir a risada
travessa e o olhar zombeteiro de seus olhos cor de mel escuro, e
vê-la se arqueando feito um bambu ao compasso dos mambos. E
continuo achando que, apesar de já ter vivido tantos
verões, aquele foi o mais fabuloso de todos."
(Mario Vargas Llosa em Travessuras da menina má)
"Abaixei as alças de seu sutiã, mas Brenda disse que
não e afastou-se de mim um pouco, e pela primeira vez em duas
semanas, desde que eu a conhecera, fez uma pergunta a meu respeito."
(Philip Roth em Adeus, Columbus)
"Podiam o silêncio e o ar blasé de alguns senhores
refestelados em suas poltronas sugerir a impressão de
tédio, um quê de sonolência, fastio e
cansaço, como a lembrar a atitude relaxada, lassa, dos
predadores naturais após a devoração da presa."
(Marcos Poggi em A senhora da casa do sono)
"Como se eu fosse esquecer o crioulo que fingia que morava nas pedras
com as baratas, mas não era do ramo e cheirava a sabonete
perfumado e tinha um relógio granfa no pulso e quando meteu a
mão na cintura para tirar a ferramenta dei-lhe um tiro na
cabeça e fiquei com a arma dele, uma Glock 18,
automática, uma beleza, a melhor coisa que a Áustria deu
ao mundo."
(Rubem Fonseca em Ela)
"Para chegar à casa de pedra, sede da estância, se faz necessário ultrapassar duas porteiras."
(Luíz Horácio em Perciliana e o pássaro com alma de cão)
"Delano ficou no carro, com o motor ligado. A eternidade é isso. Foi o que ele disse quando arrancamos."
(Altamir Tojal em Faz que não vê)
"Deixe a idéia energúmena de lado, pare de olhar essa
fotografia medonha, ponha o pé direito diante do esquerdo e ande!"
(Eduardo Pires de Camargo em Azul)
"O rosto, muito redondo, era como um espelhinho de bolso: mas
não tinha a tez sombria de Rosa, escura como cólera, era
um tipo completamente diferente de rosto, olhos azuis como o ar; cabelos
que eram uma penugem macia e quase tão amarelos quanto a estrela
costurada no casaco de Rosa."
(Cynthia Ozick em O xale)
"Escrever bem não existe."
(Rodrigo G. Guimarães em Contos perversos)
"Não tinha perfume, apenas a grata aspereza de um herói do cloro, do campeão do nado livre."
(João Gilberto Noll em A máquina de ser)
"Era necessário recuperar a antiga determinação profissional."
(Ricardo Daunt em Poses)
"Ofereciam-lhe excelentes babás portuguesas mas mamãe,
racista e ilógica, acabava por dizer 'não gosto de
empregada branca.. tenho nojo' e Polixena ia ficando, para minha
alegria."
(Maria Valéria Rezende em Modo de apanhar pássaros à mão)
"O padre tinha o rosto cinzento e os olhos vermelhos, as unhas
compridas e afinadas na ponta, isso tudo me deixou assustado e resolvi
sair: 'Boa noite senhor padre, vou para o hotel'. 'Não,
não vai. Vai ficar aqui', disse ele. E me matou, eu
Valêncio!
Estou morto."
(Valêncio Xavier em Rremembranças da menina de rua morta nua)
"Mas tudo bem, transo isso não deixando ninguém me domar,
quero que o mundo se foda, estou cagando pro que os outros pensam,
porque não monto o circo pra eles, monto o circo pra mim, e quem
entender isso pode ficar no meu pedaço. Estou nesse barco e
não me queixo."
(Jayne Anne Phillips em Roda-Viva)
"Olhei sem ver, como olha quem chega numa festa já sabendo que a
única pessoa que lhe interessa não estará
lá porque ficou em casa com o marido."
(Javier Marías em Quando fui mortal)
"Além do mais, a loja ficava nuns cafundós muito
além da última periferia, num daqueles lugares onde as
ruas têm nomes como Perimetral Oeste ou Tangencial Sul -
são lugares ode o homem ainda não chegou com seus nomes,
tipo Marechal Deodoro, Getúlio Vargas ou Princesa Isabel;
tampouco existe ali o tempo, e por isso não há
memória de datas, como Sete de Setembro ou Quinze de Novembro.
Nesse lugar os nomes foram tirados da geometria mais pura e remetem a
um estado de solidão infinita."
(Mário Araújo em A hora extrema)
"Nossos olhos ficariam procurando outros tempos, resistindo em
desaparecer das fachadas desbotadas. Até a cidade mergulhar seu
silêncio no escuro da noite, ficaríamos ouvindo os pingos
batendo nas telhas."
(Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira em Uma ou outra forma de tirania)
"Desapareceu entre mães-de-santo, pagodeiros e caixas de isopor,
formando a primeira imagem do ano: seu vestido branco e justo, seus
sapatos na mão esquerda e, na direita, a garrafa de champanhe
barato que ela pegou de mim assim que bebi o primeiro gole no gargalo."
(André Giusti em A solidão do livro emprestado)
"Parece mais um bêbado semi-acordado. Zonzo, ainda se lembra de
um velho com uns restos de remo na mão querendo lutar contra o
inevitável, querendo defender seu grandioso pescado, resultado
da experiência de uma vida inteira."
(Paulo Rodrigues em Redemoinho)
"Tive vontade de enforcá-lo, mas ele acabou me deixando na porta
do shopping sem me cobrar e eu mandei ele se foder com sotaque de
paulista e entrei no shopping. Adoro o shopping Iguatemi, vinha muito
aqui quando eu era criança vendo cinema. Também ia ao
clube Pinheiros me divertir com minha família. Uma parte dela
ainda está aqui, mas não sei como encontrar."
(Bernardo Botkay (Botika) em Uma autobiografia de Lucas Frizzo)
Todas
elas
empilhadas
,
umas
sobre
as
outras,
como
se
faz
com
a
dor
:
uma
acariciando
a
outra
.
(Carlos Machado em Nós da província)
"Não queria responder, tinha vergonha de dizer eu te amo, em
inglês ficaria mais bonito, oh yeah I love you so much, muito
mais bonito que os vagos pensamentos que lhe permitiam fugir do assunto
enterrando a atenção num jogo de futebol medíocre.
Sugeriu aproveitar o entrevero e sair sem pagar."
(Adauto Leva em Primeiro do ano)
"Paris inútil lá fora. Cama com delírios
intermitentes. Suores melados. Cheiro de quarto de tia viúva. O
studiô me parece um criatório de fungos, vírus e
bactérias. Mando uma aspirina com água de torneira. Leio
no Miramar: 'João, a vida é relativa'. Compreendo a
modernidade e me aborreço tremendamente."
(Reinaldo Moraes em Tanto faz)
"Poucos instantes depois de ter ingerido as primeiras colheradas de um
prato de sopa que lhe tinham oferecido, vomitou, sujando o local todo.
Adormeceu sem poder descobrir o que fazia o mundo dos brancos
tão diferente."
(Abdulai Sila em A última tragédia)
"E para ele, foi bom? - Tomou mais um gole da bebida. - O
importante é que seja bom para ele, meu bem. A gente faz o que
pode.
Nicole franziu a testa. Não sei. Não perguntei.
Ah, é claro que foi, disse Emily. Para eles, sempre é bom."
(Jim Lewis em O rei morreu)
"Quem não é do Meio-Oeste acha que estou inventando a
altura das ondas do lago Michigan, do mesmo jeito que a idéia de
grandes dunas e areia fina no meio do país parece ilusão,
como também talvez a idéia de amor entre homens que se
consideram héteros, como eu."
(David Means em Sinistros com fogo)
"He bent to each woman he talked to - it didn't matter how fat ou
scrawny or silly she was - as if there was one thing in her he would
like to find."
(Alice Munro em Something I've been meaning to tell you)
"Pelo jeito, toda aquela teatralidade clandestina debaixo da
água fria tinha como meta revolver à saciedade,
não sei exatamente para quê, aquilo que eu sempre soubera:
eu não poderia ser chamado de um homem bom."
(João Gilberto Noll em Harmada)
"Bem, a única coisa em que vemos algum problema em "Soneto",
Luke, pelo menos até onde posso enxergar, e sei que Jeff
concorda comigo quanto a isso, não é mesmo, Jeff? E
aliás Jim também concorda, Luke - disse Joe - , é
a forma.
Luke hesitou. Em seguida, disse:
- Você quer dizer a forma em que "Soneto" foi escrito?
- Sim, isso mesmo, Luke. A forma soneto."
(Martin Amis em Água pesada e outros contos)
"O ponto gerou certa celeuma, pois um rapaz acometido pela
doença do neoliberalismo questionou as razões coletivas."
(Manuel Vázquez Montalbán em O homem da minha vida)
"Gosto de Vuillard e Bonnard. Eles, sim, são agradáveis."
(Patrícia Highsmith em O garoto que seguiu Ripley)
"E o pórtico de vidro da entrada dos fundos, com sua
pequenina
varanda envidraçada, havia feito Jonathan pensar em pintores
como Vuillard e Bonnard."
(Patricia Highsmith em O jogo de Ripley)
"Se alguém pintasse mais falsificações do que seus próprios quadros,
será que as falsificações não se tornariam até mais naturais, mais
reais, mais genuínas para essa pessoa do que suas próprias pinturas?"
(Patricia Highsmith em Ripley subterrâneo)
"Sentiu que poderia desmaiar se ficasse mais um minuto naquele lugar,
mas o sr. Greenleaf ria novamente e perguntava-lhe se havia lido um
livro de Henry James.
- Lamento, mas creio que não, senhor. - respondeu Tom.
- Não importa. - disse sorrindo o sr. Greenleaf.
Então eles se despediram, um longo e sufocante aperto de mão do sr. Greenleaf e tudo acabou."
(Patricia Highsmith em O talentoso Ripley)
"Mas a realidade retomou o poder com um golpe baixo,
preciso e fulminante, quando a bola de futebol deu de encontro, em
altíssima velocidade, com o seu saco."
(Daniel Galera em Mãos de cavalo)
"A figura virou-se e a vi se afastar, mancando
ligeiramente. Em qualquer outra noite eu teria reparado muito pouco na
presença daquele estranho, mas assim que o perdi de vista na
neblina senti um suor frio na testa e o ar me faltou. Tinha lido uma
descrição idêntica daquela cena em A Sombra do Vento."
(Carlos Ruiz Zafón em A sombra do vento)
"Mora num quarto na subida de Santa Teresa, na casa de
uma velha mãe-de-santo que cuida dele. Os orixás costumam
ser generosos com os cachaceiros. E vício e verso."
(Mauro Pinheiro em Concerto para corda e pescoço)
"Ela detesta particularmente o alternar das cores do
farol da esquina, bem em frente ao ponto de ônibus e ao quintal
da sua casa. Para resolver isso, só mesmo comprando uma cortina."
(Ricardo Lísias em Duas praças)
"A maioria das palavras tem contra-indicações."
(Montejo Navas em Da hiponcondria)
"Quando conseguirem que Portugal se transforme
sinceramente numa nação européia o país
deixará de existir. Repare: os portugueses construíram a
sua identidade por oposição à Europa, ao Reino de
Castela, e como estavam encurralados lançaram-se ao mar e vieram
ter aqui, fundaram o Brasil, colonizaram África. Ou seja,
escolheram não ser europeus."
(José Eduardo Agualusa em Um estranho em Goa)
"Na sala, engavetou as relíquias preciosas, nem
tanto por desconfiar do negro, mas para não melindrá-lo
com um luxo estranho às suas origens. Pelo interfone, avisou o
porteiro que, a qualquer momento, receberia uma 'encomenda' cujo
entregador poderia subir sem delongas. E foi tomar banho."
(Ronaldo Wrobel em A raíz quadrada)
"Era o mesmo rapazola de sempre. Estava de
férias, conheceu o Montez no Scala, ficou mais uns dias. Agora
já conhecia a cidade grande, a rua Araújo, e curtira parties
a sério. No dia seguinte, em casa dos tais Canelhas, havia de
encontrar mulheres do calibre de Clarissa Spencer. À mesa,
Afonso pediu espadarte e Sauternes. Decididamente, o mundo
começava a ruir."
(Eduardo Pitta em Persona)
"Portanto, tu pintas - disse ele no tom levemente
repugnado com que poderia ter dito: portanto, tu masturbas-te.
Mas, pela primeira vez, olhou directamente para mim. Tinha os olhos do
meu pai, exactamente os olhos do meu pai."
(Frederico Lourenço em A formosa pintura do mundo)
"Rosa Cabarcas tomou fôlego: O bolero é a
vida. Eu estava de acordo, mas até hoje não me atrevi a
escrever isso."
(Gabriel García Márquez em Memória de minhas putas tristes)
"Grito e falo dos falos dos homens que nunca amolecem,
falo do meu coração duro, falo de sexo e de uma loira que
vive comigo num apartamento pequeno demais para dois mundos tão
complexos."
(Sandra Saruê em Mulheres más)
"Também de short. Também de camiseta.
Também com os pêlos à mostra, nos pêlos, nos
braços, nas pernas, em Olavo. Na cabeça, quase nada. Sem
cabelos. Um sorriso em bochechas e banhas. Gordura. Então
é isso que meu irmão chama de felicidade..."
(Santiago Nazarian em Olívio)
"Antes ainda do sol dar os raios, encontraram-se os
cadáveres - Evita, Adinho, Lili e Observador Mais Atento -
atirados ao longo da estrada em disposição sinceramente
aleatória, cercados por diminutas caixas de madeira, suas quatro
gargantas cortadas da direita para a esquerda."
(Daniel Pellizzari em Dedo negro com unha)
"Não sei se devo lhes contar meus sonhos."
(Javier Marías em O homem sentimental)
"Penteei fio por fio. Escovei dente por dente. Maquiei
olho por olho e me olhei novamente no espelho. Ainda estava lá, por
trás de mim, entre os azulejos, jogado no ralo, tudo o que eu não
pude esconder."
(Santiago Nazarian em A morte sem nome)
"Catava indicações por email. Ligava sempre
para as mesmas editoras. Tentava furar círculos, esquemas, panelas,
mas não tinha influência real alguma. Contava apenas com seu
bom trabalho; nenhum sorriso, nenhum sorriso de simpatia."
(Santiago Nazarian em Feriado de mim mesmo)
"A sala, acostumada com o silêncio dos meus longos
períodos à janela, pareceu estranhar quando, uma vez por semana,
sempre à tarde, passou a receber a visita do grupo de amigas da minha
mãe que resolveram se reunir em volta da mesa de jantar para ter aulas
de história da arte. No começo tentei ignorá-las e me
manter em meu posto de observação, distante alguns metros da
invasão de tailleurs, vestidos, perfumes, e de conversas sobre criados,
Velázquez, crianças, receitas de doces, cubismo, Gauguin e maridos."
(Luiz Schwarcz em Discurso sobre o capim)
"Meu tio Monty, que odiava todos os rabinos mas tinha uma
ojeriza particularmente peçonhenta por Bengelsdorf desde menino, quando
fora aluno bolsista da escola religiosa da B'nai Moshe, gostava de comentar
a respeito dele: aquele filho-da-puta metido a besta sabe tudo - pena que
ele não saiba nada mais."
(Philip Roth em Complô contra a América)
"Se pelo menos o Geraldinho estivesse aqui na terra para
levar a nossa Marianinha até o altar... Mas não estava. Geraldinho
Batistutti, Homem de Vendas de 1975 pela ADVB por ter negociado mais Brasílias
do que qualquer outro vendedor das concessionárias Volkswagen no Brasil
inteiro, estava morto."
(Reinaldo Moraes em Umidade)
"Romances e filmes, por serem agitadamente modernos, impelem
a gente para a frente ou para trás no tempo, ao longo dos dias, dos
anos ou até de gerações. Mas, para apresentar suas observações
e seus juízos, a poesia se equilibra na ponta de alfinete de um instante.
Retardar o ritmo, parar completamente, para ler e compreender um poema é
o mesmo que tentar adquirir uma habilidade arcaica, como erguer uma muralha
de pedras ou hipnotizar trutas para pescá-las."
((Ian McEwan em Sábado)
"Gil tornava-se cada vez mais esotérico, e eu próprio
vivi a virada tropicalista como sendo, entre outras coisas, uma volta às
questões que dizem respeito à religião, sobretudo porque
eu acreditava então estar a religiosidade tão reprimida (pelos
dogmas da esquerda superficial que imperava no ambiente da música popular)
quanto a sexualidade."
(Caetano Veloso em O mundo não é chato)